Waldomiro de Deus

 

Na luta da vida

 

O termo autodidata contemporâneo talvez seja o melhor para definir a arte de Waldomiro de Deus. Seu trabalho apresenta, como elementos unificadores, as cores vivas, a imaginação, a estilização, a ausência das proporções ditadas pelas academias  e um poder de síntese muito peculiar. Ela brota, com admirável força, do inconsciente coletivo e conquista pela maneira de articular as composições.

            Suas obras variam de uma Nossa Senhora de minissaia a uma alegórica travessia do milênio com corpos e rostos morenos. A amplidão de seu espectro imaginativo ocorre dentro de uma lógica na qual é necessário sempre criar, perscrutar e interrogar criticamente o mundo circundante.

Diversificado em termos de temática e rico em soluções visuais para os problemas que a pintura coloca, as opções plásticas do artista baiano, com ateliês em São Paulo, no bairro de Pinheiros, e em Goiânia, constituem um caminho a ser seriamente discutido como alternativa as tendências que dominam a arte brasileira, muitas vezes vindas do exterior.    

O artista inclui assuntos sociais, ambientais e existenciais, pois consegue se manter atual pelo fato de nunca se conformar com a realidade circundante. Conserva, assim, a dinâmica de uma antena parabólica com o poder de receber mensagens do mundo, absorvendo-as e irradiando-as, preservando intactos a inquietação e o desejo de sobreviver e vencer pela arte, naquilo que ele chama de “luta da vida”.

Ao longo dos anos, com o desenvolvimento da globalização, via rádio, televisão e internet, sua arte passou por um processo de constante renovação.  O autodidatismo começou a conviver com influências eruditas, assimilando-as. Ocorreu, assim, a conservação de características próprias, como a capacidade de articular sabedoria popular com imaginação individual e coletiva. Isso inclui referências à mídia e a fatos da política nacional, como o célebre episódio do “dólar na cueca”, e internacionais, como os atentados às torres gêmeas e ao trem espanhol.

            Quando Waldomiro discute sua preocupação com o meio ambiente, raciocina, na verdade, sobre o estado do mundo e como a vida contemporânea está cada vez mais marcada pela perda de valores essências à vida, como a convivência com a natureza e com a família, ambas ameaçadas pela violência em todas as suas instâncias, desde o desmatamento às drogas.

            Nascido em 12 de junho de 1944, em Itajibá, sul da Bahia, Waldomiro, chegou como retirante em São Paulo e freqüentou a movimentada Rua Augusta dos anos 1960. Viajou para a Europa e Israel e chegou a morar numa casa enorme com um caixão mortuário em Osasco, SP, onde dormia.

As cores, temas, simbologia e religiosidade encantam. O cotidiano, em última análise, sempre foi a sua grande matéria-prima, embora também tenha levado para a tela planetas imaginários e imagens absolutamente originais, como fictícios astronautas brasileiros na Lua, nos anos 1960.

            A versatilidade de Waldomiro surpreende. Começou retratando o folclore e passou por foguetes, críticas sociais, planetas, peixes e flores. Há imagens sensuais e erotismo, assim como pureza e encantamento de namorados. Tudo é motivo para exibir uma técnica que aprendeu sozinho, sem nunca ter pisado em escola de qualquer espécie.